A Compreensão Moderna De Stress E SNA


O sistema nervoso central (SNC) media a distribuição de recursos para lidar com as exigências internas e externas. Percepções e ameaças à sobrevivência podem promover uma retirada de tónus do sistema nervoso parassimpático (SNP) e uma excitação do tónus do sistema nervoso simpático (SNS). O trade-off entre as necessidades internas e externas pode ser usado para desenvolver definições de stress e homeostasia. Neste modelo o stress e a homeostasia são interdependentes. A homeostasia refecte a regulação dos órgãos internos e o stress reflecte a subjulgação de necessidades internas em resposta a exigências externas. É por isso que medir o tónus do SNP pode fornecer variáveis classificativas para definir stress e vulnerabilidade ao stress.

Estes dois conceitos podem assim ser definidos na ausência de grandes mudanças do tónus do SNS. Na pesquisa da avaliação de stress em recém nascidos saudáveis a diminuição do tónus só SNP causada por um agente de stress é acompanhada por um aumento do tónus do SNS. No entanto crianças clinicamente comprometidas podem não apresentar reactividade do SNS e o tónus deste sistema pode ser baixo. Estas crianças normalmente têm um tónus do SNP baixo e muito fraca reactividade do SNP. Clinicamente seriam descritas como portadores de stress crónico e fisiologicamente instáveis. Assim, a diminuição do tónus do SNP em relação ao tónus do SNS pode definir stress, e um tónus do SNP elevado previamente à exposição do agente causador de stress poderia representar uma baixa vulnerabilidade ao stress, enquanto um tónus do SNP reduzido representaria uma alta vulnerabilidade ao stress. Desta forma indivíduos com problemas homeostáticos terão uma maior vulnerabilidade ao stress.

Em muitos sistemas fisiológicos o controlo neural eficiente manifesta-se como uma variabilidade fisiológica rítmica, e dentro de parâmetros normais quanto maior for a amplitude da oscilação mais saudável será o indivíduo. Quanto maior for a amplitude de variabilidade fisiológica rítmica organizada maior será o potencial de resposta ou possível variação de comportamento. Indivíduos com variabilidade fisiológica atenuada iriam exibir uma falta de flexibilidade fisiológica e comportamental em resposta às exigências do ambiente. Esta foi a situação observada em várias crianças doentes.

Estimular os outros aferentes do SNP parece fornecer um aumento reflexo no tónus vagal do coração e por isso este último parece reflectir o input geral do SNP para os órgãos.

A medição de actividade do SNP disponível mais facilmente deriva do padrão da frequência cardíaca em resposta a respiração, isto é, arritmia sinusal respiratória. A frequência cardíaca aumenta com a inspiração e diminui durante a expiração sob o controlo de impulsos eferentes parassimpáticos ao longo do nervo vagal. Padrões de frequência cardíaca, como processos comportamentais, dependem do estado do sistema nervoso e da qualidade do feedback neural.

O stress resulta numa desorganização da estrutura rítmica do comportamento e do estado autónomo. Assim, medições do tónus cardíaco vagal fornecem alguma informação acerca dos processos centrais necessários para o comportamento organizado. Se o tónus vagal funciona como um índice sensível do estado funcional do sistema nervoso então poderíamos prever que indivíduos com um aumento de tónus vagal iriam exibir uma maior variedade de comportamentos competentes.

O padrão de frequência cardíaca reflecte o feedback contínuo entre o SNC e os receptores periféricos autónomos.

A fonte primária de VFC é mediada por subidas e descidas fásicas nos outputs neurais eferentes. Através do nervo vago até ao coração. Quanto maior for a amplitude de subidas e descidas "mais saudável" é o indivíduo. Uma atenuação na variedade das funções homeostáticas é acompanhada por uma diminuição do tónus vagal.

A VFC é um marcador de eficácia dos mecanismos de feedback neural e pode indicar o estado de saúde ou a capacidade do indivíduo para organizar recursos fisiológicos para responder apropriadamente. Assim quanto melhor for a variabilidade fisiológica "organizada" mais variações terá o comportamento. Estados caracterizados por influências vagais atenuadas devem ser associadas a uma reduzida flexibilidade comportamental em resposta a exigências ambientais. O nível basal de tónus vagal é importante (medido durante o sono) assim como a capacidade de resposta vagal durante desafios cognitivos e sensoriais. Indivíduos com maior capacidade de resposta, como exemplificado numa aceleração da frequência cardíaca, também exibem menos sinais de angústia.

ECG

VFC como marcador de actividade do SNA

A VFC baseia-se na diferença de tempo entre cada batimento cardíaco (onda R), isto é, na variabilidade batimento-a-batimento. Cada onda R representa uma contracção cardíaca e corresponde ao pulso. A variabilidade batimento-a-batimento é afectada pela actividade do SNA.

Normalmente o batimento cardíaco deveria variar entre batimentos sob o controlo directo do SNP e do SNS (o SNS aumenta a frequência cardíaca e o SNP diminui a frequência cardíaca). A VFC resulta da interacção deste dois sistemas. É aceite pelos cientistas que esta interacção no coração é um reflexo do equilíbrio ou desequilíbrio do SNA no corpo em geral. Por exemplo, se o coração for dominado pelo SNS há indicação de que existe uma dominância simpática no SNA. Isto sugeria um sistema sob stress crónico e vulnerável a mais stress. Um SNA demasiado reactivo indica que os sistema está sob stress constante, sendo que um SNA em equilíbrio é importante para lidar com o stress de forma eficaz.

Investigações recentes realçam como a personalidade e pensamentos individuais influenciam a saúde e a VFC. Estados contínuos de eficiência positiva levam a um modo de função fisiológica que parece facilitar os processos regenerativos naturais do corpo. Coerência fisiológica - um padrão em forma de onda sinusoidal no ritmo cardíaco, aumento de sincronização coração/cérebro e uma ligação entre diversos sistemas fisiológicos ocorre depois de focar pensamentos positivos, e emoções positivas podem produzir períodos prolongados de entrainment fisiológico.

Um sistema fisiológico saudável tem as seguintes características:
- controlo neural eficiente;
- variabilidade fisiológica rítmica dentro dos limites normais;
- uma maior resposta - potencial a desafios;
- uma maior variedade de resposta comportamental.

Uma variabilidade fisiológica atenuada está associada a uma falta de flexibilidade psicológica e comportamental em resposta ao ambiente. Uma redução na VFC é portanto não só um indicador de falta de variabilidade fisiológica mas também um reflexo de flexibilidade psicológica e comportamental reduzida.

Apesar de a nossa compreensão acerca da VFC estar longe de completa esta parece ser um marcador dinâmico e cumulativo. Como um marcador dinâmico de carga, a VFC parece ser sensível e responsiva a stress agudo. Em condições laboratoriais a carga mental (incluindo tomar decisões complexas ou discursar em público) tem demonstrado diminuir a VFC. Como marcador de desgaste cumulativo, a VFC entra em declínio com o avanço da idade. Apesar de a frequência cardíaca em repouso não se alterar significativamente com o envelhecimento ocorre um declínio na VFC que tem sido atribuído a diminuição do tónus vagal eferente e a redução da capacidade de resposta beta-adrenérgica. Pelo contrário, a actividade física regular (que tende a reduzir com o envelhecimento) provoca um aumento na VFC presumivelmente por aumentar o tónus vagal.

Resumindo, a VFC é um marcador de dois processos relevantes para a conceptualização de carga alostática: 1) activação frequente (alterações na VFC em resposta a stress agudo): e 2) resposta inadequada (retirada vagal a longo prazo que resulta numa actividade excessiva do sistema regulador oposto - neste caso, controlo simpático do ritmo cardíaco).

Diversos estudos sugeriram existir uma ligação entre emoções negativas (tais como ansiedade e hostilidade) e uma redução da VFC. Uma associação transversal entre ansiedade e a diminuição da VFC (como determinado por duas medições do domínio do tempo). VFC mais reduzidas em indivíduos que se encontram "altamente ansiosos" de acordo com o Minnesota Multiphasic Personality Inventory.

Autonomic Balance Analysis - ANS